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3 de out de 2012

Entrevista

Gênero textual: Entrevista

A Entrevista é um gênero textual que surge da oralidade. Organiza-se por meio de uma sequência de perguntas e respostas, envolvendo, geralmente, dois interlocutores: o que pergunta e o que responde. Em se tratando dos meios de comunicação impressos, é comum que o entrevistador, dependendo do periódico, assuma a “personalidade” do jornal ou revista em que será veiculado o texto.

O espaço no periódico reservado a ela não costuma exceder mais de uma página. Quanto ao entrevistado, pressupõe-se sempre que ele tenha algo de interessante a ser dito ao público ao qual é destinada determinada publicação. Suas informações podem versar sobre assuntos de áreas específicas do conhecimento, experiências pessoais, biografias e opiniões.

Estruturalmente, o texto entrevista é constituído de um título, do lide, de um parágrafo introdutório no qual se apresentam informações básicas sobre o entrevistado e, por fim, de perguntas e respostas, ou seja, da parte que é a entrevista propriamente dita.

Embora o sucesso de uma entrevista resida, logicamente, na pertinência na escolha do entrevistado, sobretudo depende da qualidade das perguntas do entrevistador. Este, não raramente, estuda seu interlocutor, planeja as perguntas e, conforme a entrevista vai ocorrendo, encontra em algumas respostas o tema para novas perguntas.

Devido aos recursos necessários para construir um texto desse tipo, parece inviável que se proponha a um vestibulando que ele escreva uma entrevista em sua prova, no entanto não é um gênero impossível de ser pedido. Além disso, ele pode servir como texto de apoio para outros tipos de redação e, por esse motivo, é importante conhecê-lo bem.

Leia a entrevista a seguir e procure identificar as características desse gênero textual elencadas anteriormente.





Miopia coletiva

O economista diz que a impaciência torna a sociedade brasileira incapaz de enxergar os desafios do futuro

- Marcio Aith

Qual é a relação entre contrair um empréstimo e o dilema de devorar uma sobremesa calórica? O que têm em comum as atividades do Banco Central e a decisão de consumir drogas? O economista Eduardo Giannetti da Fonseca enxerga em todos esses dilemas a lógica dos juros. Segundo ele, ao comer a sobremesa, desfruta-se o momento e pagam-se os juros depois, na forma de exercícios físicos. Para desfrutar alguns momentos de prazer extático, o drogado muitas vezes sacrifica seu patrimônio cerebral futuro. Torna-se agiota de si mesmo. Professor do Ibmec São Paulo, Giannetti acaba de lançar O Valor do Amanhã, uma das mais valiosas e legíveis obras já escritas sobre um assunto tão complexo e aparentemente árido como os juros. Sua tese central, exposta na entrevista que se segue, é a de que o mecanismo dos juros encontra similar na vida cotidiana das pessoas, na crença religiosa e até no metabolismo humano. A mesma lógica define o comportamento dos indivíduos e das sociedades. As que atribuem valor exagerado ao presente sujeitam-se a juros elevados. As que se preocupam demais com o futuro deixam passar boas oportunidades de investir e desfrutar o presente. Integrante do primeiro grupo de países, o Brasil padeceria do que Giannetti apelidou de miopia temporal – uma anomalia, alimentada pela impaciência, que leva o país a subestimar os desafios ambientais e sociais e a tentar resolver tudo a carimbadas e canetadas.

Veja – Como o senhor concluiu que o pagamento de juros não se restringe ao mundo das finanças?

Giannetti – As leis da economia descrevem muito bem o que ocorre na natureza. Não foi à toa que Charles Darwin, como ele próprio relata, vislumbrou a teoria da evolução lendo o economista Thomas Malthus. A luta para manter-se vivo e se reproduzir é uma forma de economia, e todos os seres vivos, inclusive os vegetais, precisam de algum modo decidir entre usar recursos agora e poupá-los para o futuro. As folhas das árvores captam renda solar para formar um estoque de energia que produzirá frutos e sementes na estação propícia. Toda vez que se abre mão de algo no presente em prol de um benefício futuro (ou vice-versa) está implícita a ocorrência de juros.

Veja – Como se dão o acúmulo de poupança e o pagamento de juros no mundo biológico?

Giannetti – Em várias situações. Toda vez que comemos em demasia, nosso organismo cria uma poupança automática na forma de gordura. Pode não parecer correto para quem quer emagrecer, mas, evolucionariamente, faz muito sentido. A existência dessa poupança na forma de gordura permite a um animal fazer um consumo pontual concentrado de energia sem precisar parar a fim de alimentar-se. Daí que o exercício físico "queima" gordura. Mas essa poupança tem custos. Você perde agilidade, perde mobilidade e precisa mantê-la apta para consumo. Mas traz benefícios. Serve de reserva para situações de atividade intensa e permite que um animal mantenha o nível calórico por algum tempo, mesmo que esteja atravessando um período de "vacas magras". É o que, em economia, chamamos de poupança precaucionária.

Veja – E os juros?

Giannetti – Os juros são a relação entre os custos e os benefícios no tempo. Se os benefícios compensam os custos, então os juros valem a pena. Quando acaba a gordura e a fome se torna desesperada, o organismo não tem outro recurso senão recorrer a um emprestador em última instância – na prática, um "agiota". Na falta de comida, o corpo passa então a consumir os próprios músculos, pagando na prática juros exorbitantes pelo benefício de manter-se vivo. Por que o preço é exorbitante? Porque uma parte desses músculos consumidos não vai mais se reconstituir no futuro. É como queimar a mobília da casa para não morrer de frio. Consome-se patrimônio para sobreviver mais um dia. O imperativo de manter-se vivo impõe um custo exorbitante no futuro.

Veja – Mas nesses casos, ao contrário do que ocorre no mundo das finanças, não há escolha. O mecanismo é automático.

Giannetti – O comportamento humano se diferencia pela liberdade de escolha. Quando lhe é oferecido um doce de sobremesa, o ser humano adulto pondera: será que o prazer de desfrutá-lo agora compensa as calorias adicionais que vou ingerir e, eventualmente, o exercício físico que vou ter de fazer para queimá-las e evitar a obesidade? Se o prazer do momento, ou seja, a decisão de comer o doce prevalece, a conta de juros da escolha vem depois – é a gordura indesejada. Mas, se eu opto pelo regime, então fico na posição credora, ou seja, o meu sacrifício de abrir mão do doce renderá juros mais à frente, na forma de um corpo esbelto e mais saúde.

Veja – Às vezes é mais racional privilegiar o momento, desfrutar o aqui e agora e esquecer a posteridade, não?

Giannetti – Depende das circunstâncias. Para alguém que esteja em situação de muita carência, por exemplo, não há prêmio futuro que justifique um sacrifício agora. Se você está passando fome, não há promessa de banquete regado a vinho mas disponível só daqui a um mês que justifique abrir mão de um prato de arroz já. Algum grau de impaciência faz parte da lógica da vida. Há situações na vida em que, se você perder a chance de agir, não haverá outra vez. Outra questão é a oportunidade. Se você tiver segurança de que receberá um prêmio alto no futuro, e se você puder de fato esperar até lá, então vale a pena fazer um sacrifício agora para alcançar esse benefício. Mas, se os juros não pagam o sacrifício, então o melhor a fazer é desfrutar o momento. Carpe diem ("aproveite o dia"), como propõe o poeta latino Horácio.

Veja – Ou seja, essas decisões estão sujeitas a variáveis?

Giannetti – São muitas as variáveis. O ciclo de vida, por exemplo, afeta muito a psicologia temporal. Experimentos mostram que uma criança de 4 anos não consegue esperar vinte minutos para ganhar o dobro do confeito de que ela mais gosta. Aos 12 anos, logo antes da puberdade, 60% das crianças já agüentam esperar os vinte minutos para ganhar o dobro do confeito, ou seja, 100% de juro real. Isso mostra que é dos 4 aos 12 anos que se forma, no ser humano, o equipamento cerebral e mental necessário para exercitar a arte da escolha no tempo. O modo de vida da sociedade também conta muito. Numa aldeia indígena pré-agrícola tudo conspira para que se viva intensamente o presente quase absoluto.

Veja – Como explicar que algumas culturas, como a egípcia, a asteca e a inca, tenham erguido custosas e complexas estruturas pensando no futuro?

Giannetti – As magníficas ruínas das antigas civilizações do México, dos Andes e do Egito realmente mostram que elas eram capazes de transferir vastas quantidades de trabalho e recursos do presente para o futuro. Só que o objetivo em nome do qual isso era feito não era a geração de excedentes econômicos cada vez maiores, mas a obtenção dos juros infinitos da bem-aventurança eterna, após a morte, por meio de dádivas e súplicas de pedra dirigidas aos seus deuses.

Veja – Os índios brasileiros não fizeram o mesmo. Por quê?

Giannetti – A natureza era tão generosa que eles talvez não tenham sido estimulados a desenvolver o hábito mental da espera. Nem precisavam, pois viviam basicamente da caça e da coleta. Ao relatar a viagem que fez com índios guaranis a Paris no século XIX, o naturalista francês Saint-Hilaire informou ter explicado a eles que era desejável guardar coisas para o amanhã. E eles perguntavam "O que é o amanhã?", como se não entendessem o significado da palavra. Algo similar ocorreu com os jesuítas que queriam acostumar os índios à disciplina do trabalho agrícola, para o qual jamais haviam sido treinados. Uma das maiores dificuldades era precisamente impedir que eles consumissem, às vezes até mesmo antes da colheita, as espigas e sementes que deveriam ser guardadas para o plantio da safra seguinte.

Veja – Quais são as distorções mais comuns no raciocínio dos seres humanos com relação a esse dilema?

Giannetti – Usando o sentido da visão como analogia, creio que existem duas anomalias básicas. Na miopia temporal, a pessoa vê com muita intensidade aquilo que está próximo, mas não consegue ter a mesma clareza em relação aos seus interesses futuros. A outra é a hipermetropia, quando se divisa com muita intensidade aquilo que está longe, no futuro, mas acaba-se sacrificando em demasia o presente. Suspeito que, no Brasil, a anomalia predominante seja a miopia temporal. Já nos países asiáticos, como o Japão, haveria o caso oposto. É só lembrar como foi difícil para o governo japonês, por muito tempo, convencer as pessoas a gastar. Elas só queriam poupar. Com isso, atrapalhavam a recuperação econômica.

Veja – Onde se manifesta essa miopia dos brasileiros?

Giannetti – Os exemplos são muitos. Veja o caso da nossa incapacidade secular em construir um ensino fundamental de qualidade – na verdade, uma incapacidade de cuidar do amanhã. Os políticos no Brasil repetidamente tomam iniciativas vistosas no campo da educação: o Leonel Brizola fez o Ciep, o Fernando Collor fez o Ciac e a Marta Suplicy fez o CEU. Parece algo maravilhoso, mas e a consistência no tempo? Não há projeto pedagógico, não há recursos para financiar qualidade de ensino, não há cobrança de resultados nem o empenho em tornar isso uma realidade efetiva ao longo do tempo. Na Previdência, temos um sistema completamente desestruturado. Na relação com a natureza, estamos consumindo nosso patrimônio ambiental num ritmo absolutamente desastroso.

Veja – Os brasileiros também são míopes quando tratam deles próprios?

Giannetti – Em muitos casos, sim. Um ex-presidente da empresa alemã Bosch faz uma observação curiosa. O Brasil, ele diz, é o único lugar do mundo onde a pessoa pensa no som do carro antes de pensar no seguro. A classe média também se comporta de forma curiosa. Existe um contingente grande de brasileiros com dinheiro aplicado em algum instrumento de poupança ou de renda fixa e que, ao mesmo tempo, têm dívidas no crédito pessoal ou no cheque especial. Os juros que recebem pelo dinheiro aplicado são muito menores do que os juros que pagam nas dívidas que têm. Se rasgassem dinheiro estariam fazendo exatamente a mesma coisa.

Veja – Cite um exemplo de sociedade que conseguiu amadurecer sua capacidade de tomar decisões racionais com relação ao futuro.

Giannetti – Em 1905, a economia da Coréia tinha algumas semelhanças com a do Brasil de hoje. Taxas de juros mensais de 2% a 5% em empréstimos, leis que impediam a cobrança de dívidas, corrupção generalizada e um sistema educacional falho. Dando o exemplo histórico, conseguiu mudar radicalmente esse quadro. Hoje, consegue transferir recursos para o futuro de uma maneira notável, em alguns casos talvez até pecando pelo excesso.

Veja – O Brasil tem os juros mais altos do mundo. Há quem acredite que a economia não teria problemas e floresceria se os juros fossem reduzidos a canetadas.

Giannetti – Machado de Assis tem um conto chamado O Empréstimo, em que ele descreve um personagem com a vocação da riqueza mas sem a vocação do trabalho. A resultante são dívidas. Eu adapto isso para o Brasil: um país com a vocação do crescimento mas sem a vocação da espera. Quando tenta fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, crescer sem poupar, a resultante é inflação ou crise de balanço de pagamentos. Para manter o sistema em razoável equilíbrio, evitando inflação ou abuso da poupança externa, tem de praticar juros primários muito elevados. É como um carro que precisa andar com o freio de mão puxado. Se soltar, desembesta.

Veja – Como baixar esse freio de mão?

Giannetti – Há duas opiniões básicas nessa controvérsia: ou os juros altos são a causa dos nossos problemas, ou os juros altos são sintoma de desequilíbrios que nós precisamos resolver. Eu me incluo no segundo grupo. Imagine que o Banco Central passe a praticar juros primários muito mais baixos do que esses dos últimos quinze anos. O que vai acontecer? A demanda vai começar a aumentar no Brasil. Só que a capacidade de nossa economia para atender esse crescimento de consumo e investimento é limitada. Chegará um momento em que, se a demanda continuar crescendo, não vai ter produção, não vai ter oferta agregada no Brasil para atendê-la. Aí podem acontecer duas coisas: ou começa a inflação, ou então passamos a usar a poupança externa, do resto do mundo, para financiar nossos gastos de consumo e investimento.

Veja – Qual é o impacto que a atual crise política terá na capacidade futura de julgamento eleitoral dos brasileiros?

Giannetti – Acho que diminuiu o maniqueísmo, diminuiu a arrogância. A crise política pode ajudar o país a enfrentar os verdadeiros problemas, na medida em que põe por terra muitas ilusões herdadas do passado quanto à facilidade de mudança. As três grandes forças de oposição gestadas no Brasil durante o regime militar foram testadas na seqüência natural: primeiro o PMDB do Ulysses e do Sarney; depois nós tivemos uma carta fora do baralho, que foi o Collor, rapidamente expelida; depois tivemos o PSDB do Fernando Henrique Cardoso, com dois mandatos; por fim, a última grande força de oposição da época do regime militar, que eram o Lula e o PT, teve a sua chance. Significa que não sobrou nenhuma força de oposição relevante, daquela época, que não tenha sido experimentada pelo eleitor. Fechamos um ciclo.

Veja – Qual foi o saldo desse ciclo?

Giannetti – Cada um desses grupos se apresentou à sociedade dizendo: basta nós estarmos lá, porque somos bons e somos justos, que as coisas se resolverão. O padrão de desigualdade social no Brasil não mudou e o crescimento sustentado não foi alcançado. O governo Lula não foi diferente.

http://veja.abril.com.br/091105/entrevista.html

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