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16 de dez de 2017

DISCURSO DE PARANINFO - PGD- 2017

Discurso em ocasião da formatura do 3o Ano dos alunos do colégio PGD, de 2017.

Caros pais e mães, alunas e alunos, mantenedores, diretores, coordenadores e colegas professores do nosso querido colégio PGD,
Antes de escrever este texto, perguntei àqueles que hoje se transformam em meus ex-alunos sobre o que eles desejariam que eu falasse nesta noite. Surgiram então três temas: Realidade, Felicidade e Esperança.
Primeiro resolvi abordar a realidade, essa que é sempre fonte de polêmicas, pois, em torno de fatos, é comum que criemos fantasias e hipóteses para explicá-los. A realidade, essa irmã da verdade, é sempre algo complexo, porque os sentidos humanos não são completos e a análise humana é imperfeita. Assim, qualquer abordagem que eu faça da realidade é, antes, como diria o teólogo Leonardo Boff, a visão de um mero ponto. Por outro lado, creio que hoje temos necessidade de algo mais concreto, então escolhi refletir sobre o que defende um ditado oriental: “a verdade está nos fatos”.
Resolvi, então, sendo mais pragmático, apresentar a vocês fatos; fatos que para mim consistiram em realidade, felicidade e esperança.
Vamos a eles então:
Neste ano fiquei muito surpreso com o convite para falar-lhes pela última vez como seu professor. Mais especificamente, fiquei surpreso, feliz e confuso. Explico.
Surpreso, porque neste ano nenhum aluno ouviu de minha boca frase destinada a incentivá-los a passar no vestibular nem a estudar como atletas para ter um alto desempenho nas provas. Tampouco os incentivei a tirar boas notas ou a desenvolver um plano de estudos, ou a serem bons filhos, bons alunos, bons cidadãos ou o que seja. Se os incentivei em algum sentido, foi para respeitar os que são e pensam de modo diferente de vocês, foi para não se tornarem cúmplices nem de seus amigos, caso eles ajam em prejuízo de outra pessoa, ainda que vocês não a conheçam nem gostem dela. Disse que, para agir com convicção, é preciso coragem, e que, sempre que respeitamos nossos princípios, de uma forma ou outra, pagamos um preço.
Com franca humildade, sei que muitos de meus colegas se dedicaram com muito mais afinco em favor de vocês, para que obtivessem e obtenham sucesso nos tão temidos vestibulares. Portanto, minha consciência me acusa que esse não foi o meu caso, eis todo o motivo de minha surpresa.
Contudo, nesse momento, ao refletir sobre este texto, acredito que o desejo de vocês é, no fundo, mais do que ouvir palavras, mas ouvir algo semelhante ao que ouviram de mim ao longo desses anos, algo que envolva experiências que vão para além dos muros e do universo escolar e acadêmico. Acho que é isso, não é?
Bom, se já disse por que fiquei surpreso, agora saibam por que fiquei feliz. Fiquei feliz porque ter sido uma escolha de vocês implica que essa foi uma decisão carregada de afeto, que chegou com um significado que transcende a racionalidade. Assim, se o coração é um cálice, saibam que o meu agora transborda. Tenho de dizer-lhes, portanto, muito obrigado pelo carinho e confiança, não conheço maior tesouro na vida. Tenho cada um de vocês em meu coração, saibam disso.
Opa, será que isso tem a ver com felicidade?
E como falar sobre ela, como teoria ou como realidade?
Prefiro a segunda forma, portanto nada de Aristóteles, Rousseau ou outro digno filósofo. Vou tratar somente sobre o modo como a felicidade se apresentou para mim, e só posso esperar que isso faça sentido para vocês. Prometo quase nada de teoria.
Quando me propuseram o tema, resolvi investigar três momentos em que experimentei legítima felicidade. E foi uma verdadeira surpresa.
Uma memória marcante foi uma vez que minha mãe disse que eu deveria ajudá-la a limpar o carpete do apartamento onde morávamos. Eu tinha nove anos. Ela encheu um balde com água e sabão, deu-me um escovão, molhou um escovão que estava com ela e começou a passar com força no chão. Estávamos de joelhos e juntos, ela cobrindo uma área muito maior do carpete do que a minha. Durante uma tarde inteira de sábado, ficamos absortos por aquela atividade inglória. Meus joelhos ficaram doídos, minhas mãos coçavam por causa do sabão e meu corpo ficou um tanto dolorido, mas sei que tudo foi superado por uma sensação que chamo hoje de felicidade, e que senti ao longo de todo aquele processo.
Outra memória, bem mais recente, foi quando, no ano passado, fiquei internado durante duas semanas no hospital. Minha esposa assumiu responsabilidades que eram minhas. Ela, além de não reclamar de estar sobrecarregada por eu não poder cumprir com a minha parte, foi gentil, amável e carinhosa. Em determinado momento, durante minha internação, embora meu corpo estivesse muito comprometido, me senti feliz. Não ser obrigado a fazer o que não se está em condições de fazer é sempre um alívio maravilhoso. Não ser confrontado por alguém que o ajuda de modo a ficar claro que você está recebendo um favor que você já sabe estar recebendo, é duplamente mais reconfortante.
Por fim, a última referência de felicidade deu-se alguns dias atrás. Minha cachorrinha Gigi, com treze anos, rompeu o ligamento do joelho. Ela está mancando com dor há algumas semanas. Disseram-me que ela talvez não suportaria uma cirurgia, e entendi que talvez fosse o momento de me despedir dela. A partir de então, comecei a abraçá-la mais, a beijá-la e a me despedir dela aos poucos e todos os dias. E o que há de feliz nisso? – você pode estar se perguntando.
Acrescento, ainda, à pergunta: o que pode haver de feliz nos meus três exemplos, nos três fatos reais?
Então vou tentar explicar.
No primeiro, minha mãe me fez experimentar três importantes lições da felicidade, o que um psicólogo chamado Bert Hellinger chamou de:  pertencimento, hierarquia e equilíbrio.
Quando ela me convocou àquele trabalho, eu senti que pertencia à vida dela, à casa e à família. Em verdade, nós precisamos sentir que pertencemos a alguém, a um grupo, a um núcleo onde somos respeitados, amados e no qual temos uma função. Se os nossos pais não fazem isso, a vida fica extremamente difícil logo de começo. Se não encontramos esse sentimento depois, como ser feliz?
Quando ela usou a autoridade dela para que eu a ajudasse, ela me ensinou que eu tinha um papel e ela outro, que ela assumia o papel dela de mãe para que eu assumisse o meu papel de filho. Ao fazer uso dessa hierarquia, ela fez que eu me sentisse seguro e capaz, e que não se exigia de mim mais do que eu poderia dar. Se não nos sentimos seguros e capazes, ser feliz é praticamente impossível.
Quando ela mostrou que seu espaço de trabalho era maior do que o meu, ela demonstrou que respeitava o limite de minhas forças e entendia que o limite dela excedia o meu, demonstrou também que eu não estava sendo explorado pela vontade dela, mas que era um companheiro útil naquele trabalho árduo. Desse modo, aprendi intuitivamente que equilíbrio e companheirismo nas relações produzem bem-estar, respeito, altruísmo e amorosidade. Sem sentirmos que somos tratados com justiça, respeito e amor, a felicidade é praticamente impossível.
O segundo momento que citei, quando minha esposa assumiu sem reclamar tarefas que não eram dela e acrescentou a isso abnegado carinho e atenção, aprendi outra lição da felicidade, ser humilde é colocar-se na condição de aceitar que outro nos dê seu melhor. Receber carinho, atenção e entender que em muitos momentos precisamos ser acolhidos e verdadeiramente notados em nossas mais profundas necessidades é algo que pode nos fazer felizes. A gratidão também entra nessa fórmula.
Então, a última e mais recente lição que aprendi da felicidade é não negar a dor, me permitir sentir, ainda que as lágrimas escorram. Gigi, a minha cachorrinha, me fez entender isso. Ela em breve vai para o paraíso dos cães – e ele é lindo, já contei para ela. Antes que isso ocorra, não deixarei de acarinhá-la, beijá-la e abraçá-la, nem a evitarei como forma de fugir às minhas próprias emoções dolorosas. Isso porque sei que onde está esse tipo de dor é porque não falta amor.
Esta até agora foi minha última lição da felicidade: sem amor é impossível ser feliz.
Depois disso, notei que a lição sobre o amor estava em todos os outros momentos, mas foi a dor que me fez vê-lo de mais perto, ele, o amor, está completamente abraçado à felicidade.
Pertencimento, hierarquia, equilíbrio, segurança, respeito, altruísmo, amorosidade, justiça, companheirismo, acolhimento, humildade, gratidão e amor – por enquanto foram essas as palavras que consegui relacionar diretamente à minha noção muito particular de felicidade.
Gostaria que observassem que não citei nessa fórmula outros três elementos tão em moda. Não citei nem status, nem saúde nem dinheiro. Não o fiz por um único motivo, em minha experiência, não vi de que modo eles, por si mesmos, promovessem um sentimento profundo de bem-estar e plenitude.
Para encerrar, não posso deixar de falar da Esperança.
Sabemos todos que estamos em um momento de crises significativas no campo da política, da economia, dos valores, das certezas, uma crise sem prazo para acabar, que parece fechar nossos horizontes futuros. Como falar de esperança então?
Um dito popular garante: “O amanhã a Deus pertence”. Um versículo, talvez menos conhecido, registra uma frase de Jesus: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”
Creio que ambos têm razão.
Aprendi a acreditar que solucionar os problemas externos a nós não são garantia de muita coisa. Ter dinheiro, status e saúde também não. Obviamente são coisas boas, mas não resolvem nossas questões mais íntimas. Portanto, a esperança tem de se firmar sobre algo além.
Se posso então dizer algo sobre ela, penso que não falta esperança quando recebemos e também proporcionamos aos outros, na medida de nossas possibilidades, pelo menos alguns daqueles elementos que há pouco associei ao estado de realização e plenitude profundas. Quando sentimos que pertencemos e proporcionamos a outros esse sentimento, geramos esperança. O mesmo acontece em relação a quando somos tratados com justiça e tratamos os outros justamente, quando somos altruístas e são altruístas conosco, quando não negamos nossa fragilidade e temos compaixão com a fragilidade alheia, e quando reconhecemos a importância da dor e do amor.
Recebam, portanto, cada um o meu abraço e o desejo de que nenhum desses elementos faltem às suas vidas.
E antes que eu me esqueça, embora alguns entre vocês tenham dúvidas, ouçam esta perfeita verdade: cada um de vocês é lindo e linda a seu modo, é profundamente capaz a seu modo e merece ser reconhecido, respeitado e amado. Ser livre é não ter medo. O medo nos apequena. O medo de não agradar, o medo de não ser bom ou boa o suficiente, o medo de não ser bonita ou bonito o suficiente, o medo de não ser magro, magra ou forte o suficiente, ou de não ser adequada ou adequado, ou inteligente o suficiente nos afasta de nosso potencial mais profundo e verdadeiro. Não tenham medo.
Por outro lado, gostaria de deixar-lhes também esta reflexão: ser humilde é nunca se colocar em situação superior ou inferior à sua real condição. Não se coloquem jamais abaixo do verdadeiro valor de vocês nem deixem que ninguém o faça. Jamais se coloquem acima dos outros. Eis duas atitudes difíceis de evitar, eu sei. Mas vale tentar.
Enquanto estava em sala de aula, no alto de um tablado, estava também à frente de uma constelação. Só posso desejar que nada ofusque o brilho de vocês. Lembrem-se de que é nos dias de céu mais escuro que as estrelas brilham mais plenas. Vocês são capazes de feitos que vocês ainda nem imaginam, nunca duvidem disso!
Fiquem com meu carinho e respeito.
Uma ótima noite de celebração a todos!



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